NEUROARQUITETURA – como os ambientes construídos impactam o cérebro.



Você já ouviu falar em neurociência para arquitetura? Com base em princípios científicos, a neuroarquitetura é o estudo dos impactos dos ambientes construídos no cérebro humano.

Esses impactos podem ser conscientes ou inconscientes, alterando as emoções, e consequentemente, o comportamento humano. Ou seja, a neuroarquitetura é um conceito que utiliza pesquisas científicas da neurociência para comprovar como o cérebro reage a estímulos ambientais e às características do espaço físico, com o intuito de projetar locais que causem impactos positivos e que gerem qualidade de vida nas pessoas.

Com base neste conhecimento científico é possível criar espaços que promovam melhor convivência entre as pessoas, deixando-as mais felizes, criativas, sociáveis e produtivas. Enfim, este conhecimento tem o objetivo de comprovar e mensurar, por meio de dados e pesquisas, os impactos dos ambientes sobre os homens, para compreender de que forma é possível projetar espaços melhores e mais assertivos.

Você pode até não notar à princípio, mas o seu cérebro, a partir do momento em que você entra em determinado ambiente, produz diferentes substâncias no seu corpo, e isso pode alterar o seu humor e comportamento a curto ou longo prazo. Isso porque apenas 5% dos efeitos são notáveis; os outros 95% ocorrem apenas no cérebro, de maneira imperceptível, à revelia de nossa consciência.

Esses efeitos podem ser medidos pelos estímulos cerebrais, pelas áreas do cérebro que estão em atividade, por substâncias que são produzidas, pelo ritmo cardíaco, entre outros. 

Este estudo do sistema nervoso é medido pela neurociência, e a junção com a arquitetura é a tal da neuroarquitetura.

Recapitulando, a qualidade de vida numa edificação pode ser estudado pelos mecanismos mentais de percepção da forma daquele espaço, ou seja, o conjunto de soluções projectuais podem incidir sobre a atividade cerebral e comportamental. Concluindo, o tipo de resposta do cérebro à organização espacial de um ambiente construído é uma realidade, e deve ser sempre considerada na concepção arquitetônica.

E como os ambientes construídos impactam no comportamento humano?

Primeiramente os impactos das sensações do entorno físico em nossa fisiologia são percebidos por nossos sentidos. Fatores como a luz, a cor, o ruído, o cheiro, as texturas, o tipo de aquecimento, os níveis de privacidade (respeito ao espaço mínimo pessoal), as proximidades e amplitudes das janelas (por permitir a entrada da luz do sol, fundamental para respeitar o relógio biológico), a ergonomia e disposição dos mobiliários, tudo isto tem influência sobre o bem-estar, a saúde, a concentração, o estado emocional, a produtividade, o aprendizado e o nível de estresse das pessoas. As nossas células receptoras do nariz, ouvidos, mãos, olhos e boca, levam ao cérebro, através de neurotransmissores, informações percebidas em nosso entorno, e as nossas estruturas cerebrais reagem, e provocam determinados comportamentos.sensações e reações cerebrais

A importância do ambiente construído na qualidade de vida das pessoas é muito grande!

Nos Estados Unidos as pesquisas na área somam quase duas décadas e muita coisa já pode ser comprovada e aproveitada para balizar os profissionais de arquitetura e design de interiores.

A relação do homem com o meio é fundamental para o seu desenvolvimento, então a maneira como os ambientes são organizados e construídos é muito importante no desenvolvimento cognitivo. Questões ambientais, como luminosidade, temperatura, acústica, ventilação, etc. são elementos indispensáveis na configuração de um projeto arquitetônico de qualidade, assim como o tipo de mobiliário, as cores e as texturas das superfícies. A reconexão com a natureza também é um fator importantíssimo, por promover, comprovadamente, saúde e  bem-estar às pessoas.

Uma pesquisa inglesa da Human Spaces mostrou que a presença de elementos naturais, como plantas, no ambiente de trabalho aumenta em 15% a produtividade e a sensação de prazer.

Os efeitos terapêuticos da vivência com o verde são incomensuráveis! O americano Richard Louv, em um de seus livros, cunhou o termo “Transtorno de Déficit de Natureza (TDN)” para descrever o dano causado às crianças que crescem confinados em prédios e em uma redoma de tecnologia, porque elas poderão desenvolver miopia, obesidade, déficit de atenção, dentre outras doenças.

Um levantamento da Escola de Saúde Pública de Harvard, nos Estados Unidos, revela que morar perto de bosques, parques e jardins está associado a uma maior longevidade e a um menor risco de enfrentar doenças renais e respiratórias e padecer com a depressão. Esta é a razão pele qual alguns hospitais e clínicas já estão incorporando o verde em seus ambientes de convalescença.

Infelizmente quase 50% da população mundial mora em cidades e passam mais de 90% do tempo em espaços construídos pelo homem, inclusive em espaços públicos com pouca preocupação paisagística, onde o concreto impera quase que absoluto desde o século XIX, deixando as cidades cada vez mais áridas. Estas pessoas que vivem nos grandes centros urbanos permanecem 87% do tempo sob iluminação artificial e esta situação colabora em muito por sofrermos de altas taxas de ansiedade, neurose, depressão, estresse, insônia e até doenças mentais. Acredite!

Imagina que, segundo estudo de Roger Ulrich, que mostra que pessoas em recuperação de cirurgias que estejam em quartos que tenham vista para a natureza – árvores, plantas, bosques, diminuem seu tempo de internação, tomam menos remédios para dor, e têm menos queixas para as equipes de enfermagem. Isto é muito interessante, Dr. Roger é Ph.D do Centre for Healthcare Architecture da Universidade Chalmers de Tecnologia em Gotemburgo, na Suécia. Se quiser ver este estudo completo clique aqui. Vale super a pena, but sorry, it’s in English!

O estudo da neuroarquitetura é ainda mais importante quando percebemos que os efeitos variam de acordo com o ambiente a ser projetado, ou seja, para um projeto de uma residência ser de qualidade, a atmosfera tem de ser diferente de uma escola ou de uma loja, ou mesmo de um hospital, porque os estímulos sensoriais desejados são diferentes; enquanto que em uma casa desejamos promover o relaxamento e a socialização, no ambiente de sala de aula almejamos aprendizado, criatividade e produtividade. 

Você tem ideia do porquê ensinar aos estudantes em salas de aula amplas, com grandes janelas e luz natural é melhor e produz mais rendimento que o ensino transmitido em salas apertadas e pouco iluminadas? O processo cognitivo e emocional para aprender e memorizar tem a ver com a receptividade cerebral ao ambiente onde este processo ocorre. Toda a percepção dos ambientes gera uma reação emocional sutil ou abrupta, momentânea ou continua. 

sala de aula que recebem luz natural

É mais fácil ilustrar esses efeitos pegando o exemplo do ambiente corporativo. Os populares espaços pífios de alguns escritórios, aquelas minúsculas “baias” de trabalho, as grandes salas brancas com iluminação fria artificial, algumas até sem janelas e geralmente refrigeradas por ar condicionados, são o exemplo mais utilizado quando falamos de neuroarquitetura, porque esse tipo de ambiente proporciona pouco ou nenhum estímulo ao cérebro. Um contrassenso para os empresários que querem suas equipes em alta performance de produtividade, não acha?

Há uma equação muito singular para um projeto arquitetônico de um “WORKPLACE” de qualidade:

  • AMBIENTE MELHOR, maior a PRODUTIVIDADE! 
    (um ambiente bem projetado gera engajamento, foco e colaboração)
  • INVESTIMENTO MAIOR, mais DURABILIDADE!
    (um ambiente de trabalho feliz cria relações sólidas e promissoras)

O intuito de utilizar a neuroarquitetura em projetos corporativos é contribuir para o bem-estar dos colaboradores, minimizar fatores de estresse, evitando afastamento de membros e consequentemente aumentando a produtividade da equipe. Além disto, é uma excelente ferramenta para a construção de ambientes que estimulem a expansão das atividades cerebrais (neuro plasticidade = capacidade do sistema nervoso de mudar, adaptar-se e moldar-se a nível estrutural e funcional ao longo do desenvolvimento e quando sujeito a novas experiências), e isto significa que os ambientes construídos podem tornar mais versáteis e adaptáveis os cérebros dos colaboradores, possibilitando que eles ofereçam soluções mais eficazes para os desafios diários.

Um ambiente harmônico com cores e texturas adequadas influenciam bastante na motivação de funcionários. Estímulos no ambiente de trabalho tiram várias áreas do cérebro da sua zona de conforto, tornando os colaboradores mais criativos. Entende? A tendência hoje são as plataformas de trabalho (aqueles espaços abertos, com mesas coletivas) onde a comunicação se torna mais fácil, bem como as relações interpessoais. A criação de espaços colaborativos inteligentes (smart workplaces), com áreas de escape, de descompressão, etc., também é importante para dar uma pausa e um novo fôlego para enfrentar com mais suavidade os desafios diários.

Os ambientes de trabalho inteligentes estão além da boa estética, eles conseguem melhorar a qualidade de vida, assim como a produtividade dos usuários. Na contrapartida, ambientes mal arrumados, não projetados, escuros, desestimulam os colaboradores deixando-os mais desmotivados e isto tende agravar quadros de estresse e ansiedade. Ambientes com ruídos acima de 55 decibéis fazem as pessoas perderem 30% da concentração, além de desviarem o foco, ocasionando retrabalho.

A iluminação do ambiente corporativo pode ser considerada um fator de segurança, sabia? Uma iluminação insuficiente interfere nos níveis de desempenho do indivíduo em decorrência da diminuição do ritmo de trabalho, numa menor percepção de detalhes, aumento de erros ao executar determinadas tarefas, podendo até elevar os índices de acidentes do trabalho. Também em ambientes com baixa iluminação (sombras ou ofuscamentos), é exigido um esforço maior da visão, o que provoca fadiga visual e possíveis dores de cabeça. Iluminação exagerada também acarreta danos físicos, e estimula o estresse e a fadiga. A luz em temperatura de cor e intensidade adequadas proporciona diversos benefícios, como o aumento da acuidade visual, da velocidade da leitura e da concentração, redução da fadiga ocular e da sonolência, e consequentemente o aumento da produtividade! Você conhece sobre a Psicologia das Cores? As cores são também um estímulo importante para o cérebro e as escolhas também podem remeter à analogias diversas, como cultura local, experiência de quem está contratando o projeto, e a intenção de cada ambiente a ser construído. O cérebro humano entende como ambiente quente, seguro e acolhedor aqueles com materiais mais orgânicos possíveis, por isto a escolha de tons terrosos e revestimentos naturais e amadeirados tornam o ambiente mais acolhedor. 

Projeto com coerência aos valores organizacionais

“SMART WORKPLACES”:
     – Motivação e saúde dos trabalhadores;
     – Melhoria na performance;
     – Integração e cooperação.

A arquiteta gaucha especializada em neuroarquitetura, Priscila Bencke, defende que a influência do ambiente no cérebro humano é comprovado cientificamente, e os Estados Unidos estão na liderança de pesquisas sobre essa relação, e estas pesquisas estão ajudando a construir projetos de mais qualidade em residências e ambientes empresariais: “Antes, porém, de usar o conhecimento disponibilizado pela neuroarquitetura, é preciso conhecer as pessoas que usarão o ambiente e qual o propósito daquele espaço”, esclarece.

Quando se faz um projeto para ambientes corporativos é preciso que o profissional faça uma imersão (briefing expandido) na empresa a ser projetada, conversar com as pessoas, líderes e colaboradores, entender a cultura organizacional, respeitar os valores da corporação, para gerar um diagnóstico multi-disciplinar para servir como lastro do processo de criação do próprio conceito do projeto arquitetônico. O ideal seria unir no partido criativo visões e aplicações da neurociência, da psicologia e da arquitetura.

Escritório da GE em Dubai Internet City

Todo escritório deve ser reflexo da cultura da empresa!

É muito importante alinhar a construção de seu espaço físico aos valores da empresa e de sua marca (estou falando aqui de “branding” – conjunto de ações alinhadas ao posicionamento, propósito e valores da marca, e não apenas logotipo ou identidade visual). Como já disse, é preciso fazer um diagnóstico preciso, para que o projeto seja o reflexo da cultura organizacional. Já vi muita empresa vender um serviço, uma ideia, uma filosofia, e no seu “terreiro”, no seu escritório físico e até no seu escritório virtual (site na web), não terem qualquer sincronia ao que se propaga ou se vendem no mercado. Isto é triste, e muito preocupante, porque leva a uma avaliação negativa, de que aquela empresa não tenha um valor genuíno, consequentemente, não tenha tanta credibilidade. Sabe aquele ditado popular? “Faça o que digo mais não faça o que faço“!

Temos que entender que os ambientes de longa duração de permanência, como o ambiente corporativo, devem receber toda atenção e cuidado em sua criação para que ele não impacte negativamente na saúde cerebral das pessoas. Pense que a ALTA PERFORMANCE é alcançada com conhecimento, motivação e ambiente.

Todo mundo quer se sentir bem, feliz e acolhido, e no ambiente de trabalho isto também tem que ser percebido, assim as pessoas tendem a fazer as coisas com mais boa vontade, indo muitas vezes além do esperado.

Temos que pensar em fazer os ambientes pensando no ser-humano, com foco nas pessoas, tendo empatia às necessidades delas, porque elas que irão vivenciar estes ambientes, e é preciso que o projeto arquitetônico, assim como o projeto de interiores, façam sentido a elas. Infelizmente vemos muitas vezes o ego do profissional suplantar este senso, e até mesmo a falta de conhecimento neurocientífico que sua profissão é inserida.

Reformular os ambientes corporativos para adequá-los e aperfeiçoá-los aos novos comportamentos e “mindset” das empresas é uma tarefa que exige conhecimento amplo.

Este assunto deveria fazer parte da grade curricular dos alunos de graduação de Arquitetura e Design de Interiores de nosso país. A Academy of Neuroscience for Architecture (ANFA) tem a missão de promover e avançar no conhecimento que liga a neurociência a uma crescente compreensão das respostas humanas ao ambiente construído, é lá que aprofundo este conhecimento. 

O escritório da GE em Dubai exprime uma vibração meio futurista, expressando inovação, tudo a ver com a finalidade da empresa. O projeto de retrofit foi da Al Tayer Stocks (ATS), realizado pela Turner & Townsend, que criou espaços comuns, inteligentemente demarcados por vários elementos de design e móveis de várias cores, que criaram centros exclusivos para atividades variadas:

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